Histórias de Moradores de Ibiúna

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade de Ibiúna.


História do Morador: Pacu (Devancyr Apparecido Romão)
Local: São Paulo
Publicado em: 26/03/2014






Histórias de luta de um "agrônomo do asfalto"

História:

Identificação

Meu nome é Devancyr Apparecido Romão, eu nasci no dia 24 de abril de 1947 em São Paulo, na Lapa de Baixo.

Peixe difícil de pegar

O meu apelido é Pacu. Eu o recebi quando fui fazer faculdade de Agronomia em Botucatu. O trote era meio violento e queriam cortar meu cabelo. Na época, eu estava em crise num namoro com uma chinesa com quem fiz o cursinho... E, na vontade de continuar em São Paulo, também me inscrevi na faculdade de Geologia. E como havia passado em Botucatu, fui reservar a vaga. E tinha uma tradição de quem fosse à faculdade com o cabelo cortado, que não pelos veteranos da Geologia, eles cortariam as sobrancelhas e os cílios. Eu não podia correr este risco, estava apaixonado, em crise. Imagina ter cílios e sobrancelhas cortadas...

Então eu cheguei para o veterano que queria cortar meu cabelo e falei: “Olha, por enquanto não corta, só quando eu confirmar a minha matrícula. Aí, tudo bem, você corta meu cabelo”. E ele insistia muito, queria cortar meu cabelo. Eu me afastei, abri os braços e acabei dando um tapa na cara desse veterano. E eu vim embora pra São Paulo, esperei sair o resultado da Geologia e não passei Aí, voltei a Botucatu, para confirmar minha vaga, triste e macambúzio E os veteranos falaram: “Ô bicho, você vai chamar... Crespinho” Meu cabelo era crespo, da minha origem afro... Tinha cabelo bem pixaim. Aí, o veterano que quis cortar meu cabelo da primeira vez chegou e disse: “Crespinho não, esse bicho vai chamar Pacu. É um peixe difícil de pegar, mas, agora, eu peguei. Vem cá bicho, vem” E cortou meu cabelo. Me chamo Pacu desde 1967.

Família

Meus pais trabalhavam na roça ainda no período do colonato. Eles não moravam na mesma fazenda, mas se conheceram em um baile ou uma festa e começaram a namorar. Ele sempre pegava o cavalo para visitá-la. Meu pai trabalhou em fazenda de café. Minha mãe não trabalhava exatamente na roça, mas em casa de família. Eles moravam em Campinas e quando eles casaram, meu pai foi para Jundiaí trabalhar no Frigorífico Armour como alimentador de forno. Depois ele veio a São Paulo trabalhar na Fábrica de Aço Tupi. Foi por muitos anos como alimentador de forno, até se aposentar. Minha mãe, quando eu tinha uns três anos, entrou na prefeitura para trabalhar como servente. Depois, ela se transferiu para a biblioteca, virou auxiliar de biblioteca e se aposentou neste cargo. Depois de aposentado meu pai vendia bilhete, fazia jogo do bicho.

Eles tiveram cinco filhos. Eu sou o caçula. Tenho uma irmã mais velha, depois todos irmãos. Todos os nomes são com D: Doracy, Devanir, Dirceu, Dércio e eu, Devancyr.

Parques infantis

Minha infância foi muito legal Eu peguei um período que a cidade de São Paulo tinha parques infantis muito bons, com variedade de ensino. Nós tínhamos aula de música, trabalhos manuais, jogávamos bola todo dia, tinha piscina... Eu fiquei nesse parque infantil da Lapa de Baixo dos quatro aos onze anos de idade Até os sete anos eu ficava dois períodos, ia de manhã, voltava para casa, almoçava e voltava. Depois, no primário, eu ficava um período na escola e no outro no parque infantil.

Eu poderia freqüentar o parque infantil até os 12 anos, mas aos onze tive um atrito e acabei saindo antes do prazo. Briguei com um menino e a professora resolveu que eu deveria copiar cem vezes que não iria mais fazer isso. Fiquei revoltado porque não tinha culpa e acabei largando a coisa que eu mais gostava. Aliás isso me custou um problema sério na vida. Até hoje eu tenho muita dificuldade de me expressar pela escrita.

Fora isso, minha infância tinha muita fartura, muito leite. Quando saíamos do futebol resfolegando de tanto ter corrido, pegávamos a fila e tomávamos leite para matar a sede. Tinha muito leite, goiabada, queijo Era um período populista, do Adhemar de Barros, da Dona Leonor Mendes de Barros.

Lapa de Baixo

Eu morava bem na ponta da Lapa de Baixo, perto da várzea. Brincava muito na rua, jogava bola, bolinha de gude, taco... Era um bairro muito tranqüilo. Aliás, é um bairro que até hoje não se desenvolveu, parece que parou no tempo. Como era perto da várzea, tínhamos as cheias. Não eram enchentes. Todo ano, com as chuvas, a água ia até perto da ponta da rua. Me lembro de andar de barco, de canoa, nós brincávamos muito ali. Eu morava numa vila operária, a Fábrica de Aço Tupi era ali perto.

Infância musical

Eu passava o dia inteiro no parque infantil, na escola, ficava em casa só à noite. O pessoal gostava muito de música, era uma coisa impressionante, tinha música direto. A nossa casa era simples: quarto, sala e cozinha, um banheiro nos fundo, mas meu pai instalava alto-falante. Nós íamos ao banheiro e lá: plec Era só ligar, que ouvíamos música. Meu pai gostava muito de música e passou isso pra gente.

Eu me lembro que meu pai tinha os discos do Cascatinha e Inhana, Cauby Peixoto, Ângela Maria. Eu gostava muito. Depois, na adolescência, comecei a gostar do Elvis Presley, da Pat Boone...

Trajetória escolar

O meu primário foi realmente tranqüilo. Mas, depois, acabei não conseguindo entrar no ginásio do Estado e fui para uma escola particular, que chamava Olavo Bilac, uma escola um pouco fraca. Fiquei lá até a terceira série do ginásio, quando repeti o ano... E aí, mudou minha vida. Fui para um colégio do estado na Vila Ipojuca. Depois de lá, fui para o Colégio de Aplicação, que era um excelente colégio, um dos melhores na época

Tive um envolvimento muito bom com o colégio. Apesar de ser só um período, tinha muitas atividades além das básicas, como Teatro e Música. Ir para o ginásio do Estado, fazer o Colégio de Aplicação, mudou muito a minha vida. Estudo até hoje. Atualmente sou aluno da pós-graduação.

Vida Política

A política entrou na minha vida quando mudei para o ginásio do estado. Eu tinha 16 anos e sempre brinco que um comunista fez a minha cabeça. Aí, eu comecei a participar, em 1963 fui ao Congresso da União Paulista dos Estudantes Secundários. Na Lapa, junto com outros colégios, fizemos a Comunidade Estudantil da Zona Oeste, então nós tínhamos um bloco dentro da Upes [União Paulista dos Estudantes Secundários]. Daí em diante sempre participei da política.

A partir disso eu mudei um pouco o rumo da minha vida. Em 1963 eu trabalhando na Carrocerias Grassi, uma empresa montadora de carroceria de ônibus. A minha intenção, ao terminar o ginásio, era ser ferramenteiro. Porque eu trabalhava no escritório, era arquivista na empresa, e com o cardex, que era o estoque das peças. Eu sempre precisava ir ao almoxarifado e via o ferramenteiro, que estava de jaleco limpinho, tranqüilo. E ele tinha o maior salário da fábrica. Eu falei: “É isso aí que eu vou ser” Quando eu comecei a participar mais de política, eu resolvi: “Não, eu vou fazer faculdade, vou fazer científico pra poder fazer faculdade”.

A origem do meu engajamento político tem a ver com meu pai, que sempre batalhou pelos direitos dele. Era um metalúrgico que reivindicava os seus direitos. Foi uma coisa que me marcou muito. E quando se aposentou, depois de trabalhar tanto o salário dele era muito baixo. E eu não achava isso justo

Início da militância política

Eu entrei em Botucatu em 1967, com 20 anos. O movimento estudantil desta época foi bem agitado. Logo no meio do ano houve uma greve pra reivindicar melhores condições para a escola. Era uma escola isolada, que hoje faz parte da Unesp [Universidade Estadual Paulista], mas antes eram várias faculdades isoladas. Nossa greve chamou-se: “Operação Andarilho”. Nós éramos mais ou menos 600 alunos e saímos de ônibus e caminhão de Botucatu e atravessávamos várias cidades: Conchas, Tietê, Itu até Jundiaí. Nós entrávamos na cidade, descia todo mundo, atravessávamos a cidade, panfletávamos reivindicando e explicando nosso movimento. Quando chegamos em Jundiaí, nós viemos em fila indiana até o Palácio dos Bandeirantes. A polícia não nos deixou ficar no Palácio dos Bandeirantes e acampamos muitos dias no Ibirapuera.

Por ser uma greve reivindicatória não houve repressão. Houve uma postura da liderança de não politizar o movimento, porque já estávamos na ditadura. No ano seguinte repetimos a greve, mas ela chamava-se “Operação Denúncia”. Nós montamos umas barracas simbólicas na praça central de Botucatu, no dia seguinte iríamos para São Paulo e a polícia foi lá e picotou todas as barracas. E, por sorte, o Bispo abriu as portas e nós fomos para o seminário. Ficamos lá muitos dias. Quando a polícia abriu a guarda, nós vimos que não tinha problema e ocupamos a faculdade E lá ficamos, também, um bom tempo

Eu participei ativamente do trabalho e, no final do ano, me convidaram para participar da Ação Popular. A partir daí entrei como militante da Ação Popular [AP - organização político-partidária surgida em Belo Horizonte em 1962], depois chamada Ação Popular Marxista Leninista. Fiquei nela até nós fecharmos a organização e, sob a liderança do Geraldo Siqueira, entrarmos para o Partido dos Trabalhadores.

A Ação Popular dominava em Botucatu. Nós tivemos uma disputa política no movimento estudantil que era Ação Popular de um lado e ALN [Aliança de Libertação Nacional – organização político-partidária surgida em 1967] de outro. Eram, são dois grandes grupos em São Paulo, que pelejavam. Eu continuei na organização mesmo depois de formado, fui para São Paulo por ordem deles... Continuei a militância por muitos anos.

Organização política na faculdade

Em Botucatu nós conseguimos formar um grupo bem integrado na escola. Nós tínhamos um representante em cada sala de aula e fazíamos reuniões com esse conselho de representantes. E conseguimos fazer muitos trabalhos bem organizados. Nós participávamos das ações do movimento estudantil de São Paulo. Eu ia muito para a Maria Antônia [campus da Universidade de São Paulo onde ficava a faculdade de Filosofia] ou no Crusp [residência estudantil da USP]. A nossa participação era bastante ativa.

Nós chegamos a ir, inclusive, ao congresso de Ibiúna, fomos presos... Eu viajava muito para condução da política traçada da UNE [União Nacional dos Estudantes]. A UNE tinha executivas profissionais e, em 1969, eu assumi a presidência do Diretório Central dos Estudantes de Agronomia do Brasil - Dceab. E aí eu circulava em alguns lugares, em escolas de outros estados. Foi um agito bastante intenso, bem legal

Lembranças do Congresso de Ibiúna

Existia uma disputa muito grande entre a AP e a ALN. A AP tinha maioria no Brasil, mas, em São Paulo, quem comandava era a ALN. Foi decidido que o congresso deveria ser feito em Ibiúna, porque se avaliou que não teria condições de fazer no Crusp pois seria invadido. Na minha avaliação essa escolha foi uma espécie de preparo, pela tendência da ALN de luta no campo, em condições bem adversas.

Eu vim de Botucatu e o primeiro ponto de encontro era na PUC [Pontifícia Universidade Católica], na [Rua] Monte Alegre. De lá, tinha um carro que nos levava até aquilo que chamávamos do “Aparelho Um”, que ficava numa estrada. Todo mundo precisava ter cuidado para não descobrir onde era. Eu sei que nos deixaram à noite num sítio, ou sei lá, ao ar livre, não tinha nenhuma construção. De lá veio uma kombi e nos levou ao “Aparelho Dois”. Nesse dia teve uma coisa que me impressionou muito. Houve um atrito dentro dessa casa estava um ex-presidente da UNE, se não me engano o Guedes, que foi presidente em 1966. E o segurança do Congresso que nos levaria até o lugar definitivo não queria deixar ele passar porque ele não era delegado. Eu me lembro do cara levantar o revólver, fiquei bem impressionado Apesar de falarmos, na concepção política, da luta armada, da guerra prolongada, eu não tinha essa vivência das armas. Eu lembro que foi um atrito para o companheiro poder ir ao Congresso.

Chegamos em Ibiúna e estava um tempo meio chuvoso, aí a kombi não conseguia subir. Nós tivemos que amassar muito barro para chegar no local. Lembro que eles fizeram uma escadaria natural e cobriram de plástico e ninguém podia pisar no plástico porque era onde iam ser feitas as plenárias. No dia seguinte teve uma votação de credencial, quem tinha direito a poder votar. Teve uma discussão muito grande se os representantes do Mackenzie [Universidade Presbiteriana Mackenzie] poderiam votar ou não, porque o Mackenzie era dominado pelo pessoal de direita, inclusive o Centro Acadêmico. Mas tinha um movimento de esquerda lá dentro, e dele que foi tirado delegado... Ali eu percebi que nós da AP, iríamos ganhar o Congresso com o nosso candidato, Jean Marc van der Weid, um rapaz da Química do Rio de Janeiro.

No dia seguinte, eu lembro que estava sentado ali na plenária, nós estávamos nos preparando para começar: “Pessoal, calma, muita calma A polícia tá aí” (risos) Aí, “pow-pow”, pipocaram alguns tiros. Eu fiquei muito nervoso Então vieram, fizeram uma fila indiana e levaram todo mundo para São Paulo. Fomos todos fichados no Dops e fomos para penitenciária, ficamos alguns dias lá.

Tempo na penitenciária

A minha prisão foi em um período onde ainda não tinha chegado a repressão ao movimento estudantil. Quando estávamos na penitenciária – porque o Congresso caiu antes de ter a eleição – nós ganhamos um andar e conseguimos que as celas ficassem abertas, não ficou trancado, então as tendências se reuniram por celas... (risos) Ali foi decidido o encaminhamento do Congresso, como é que faríamos lá fora. Nem me parecia que nós estávamos numa ditadura. Nós continuávamos e iríamos fazer a Revolução, com movimento estudantil muito ativo.

No Congresso de Ibiúna foram presos quase mil estudantes. E as bancadas foram mandadas para Minas, Paraná, Bahia. O pessoal de Minas, por exemplo, conseguiu pular o ônibus e fugir. Quando chegou lá não tinha quase ninguém no ônibus para prender. Aqui de São Paulo, éramos 200 e tantos na bancada. Os de base foram soltos em dez dias, mais ou menos. Ficaram presos 22 por mais tempo e depois nove por um bom tempo, chegaram a ir para um forte militar de Santos, até sobrarem quatro. Estes quatro presos eram o Travassos, o Zé Dirceu, o Vladimir Palmeira e o Ribas, que era o presidente da Upes. O Zé, o Vladimir e o Travassos foram soltos como resgate de um seqüestro. E o Ribas, coitado, ficou mofando na cadeia.

Preso por roubar cadeados do cemitério

O Ribas, inclusive, tinha sido preso num episódio que eu participei e tive a sorte de não ser preso. Foi em 7 de setembro, nós íamos fazer uma panfletagem no desfile militar e nos juntamos em casais, acho que uns 18, entre nós e secundaristas. Eu vim de Botucatu, nos encontramos na Maria Antônia, bolamos, fizemos uma estratégia de como faríamos a panfletagem. Nós sonhávamos que iríamos entrar em alguns prédios, molhar os panfletos com álcool do lado, descer correndo, o vento secaria os panfletos e eles cairiam bem em cima do desfile militar. Eu estava fazendo a panfletagem com uma secundarista e ela disse: “Olha lá o Pontão sendo preso” Era um secundarista sendo preso do outro lado da rua. Os dois da frente também estavam sendo presos. Eu vi que a barra pesou e falei: “Desce, abaixa essa mão Vamos embora que a coisa está feia aqui”

Chegamos na primeira esquina entramos e eu disse: “Entra no bar, vai no banheiro, deixa esse pacote e vamos embora” Voltamos para a Maria Antônia, fizemos um balanço e tinha umas oito pessoas que não foram presas A ironia é que eu encontrei com um amigo meu do Colégio de Aplicação, o Roberto, ele estava fazendo FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP] e eu acabei indo embora com ele. Ele gostava de pegar coisas antigas, chegava a ir em demolição para pegar fechadura, maçanetas... E ao passarmos pelo cemitério da Doutor Arnaldo ele falou: “Olha, Devancyr, que cadeado bonito Vamos pegar esse cadeado, vamos?” Aí, foi lá para pegar o cadeado, mas tinha um guarda noturno atrás, e nos prendeu. Eu não fui preso panfletando, mas roubando cadeado de cemitério. (risos)

O guarda noturno nos jogou no necrotério. A polícia nos jogou no camburão e fomos para a delegacia da Lapa. De lá, nos pegaram de novo e nos colocaram no camburão. Vim a ser preso no Tiradentes. Eu estava com uma vergonha danada. Imagina um militante sendo preso como ladrão de cadeado. (risos) O delegado pegava meus braços: “Cadê as picadas?” O braço tremia... Achavam que eu era louco. A nossa sorte é que nos colocaram sozinhos numa cela. A cela era de cimento, com uma latrina fedida e eu, num sábado, estava na janelinha para pegar um pouco de ar e vejo os companheiros da panfletagem todos sendo soltos. No domingo nós conseguimos jogar um bilhetinho para os visitantes dos presos. Na segunda-feira, meio dia, o pai do Roberto foi lá com o advogado e nos tirou. Essa foi a minha primeira prisão. (risos)

Rivalidades políticas

A AP brigava muito, principalmente com a ALN. Havia um sectarismo muito grande. Eu me lembro que fui a uma reunião na Maria Antônia, e eu comecei a defender uma posição e aí recebi um bilhetinho da companheira Socorrinho: “Seu filho da puta Essa posição é deles Do Zé Dirceu” (risos) Era nesse nível de sectarismo... Não podia nem vacilar O pessoal chegava a não se cumprimentar. O embate era mais forte entre nós do que com a direita.

Nosso grupo era bem diminuto, porque em 1972 a AP rachou e a grande maioria foi para o PC do B [Partido Comunista do Brasil], e o que sobrou, virou a AP Socialista. Dois dirigentes do comitê central mais um grupo de militantes ficaram na AP Socialista. E em 1972 houve uma chacina na Lapa e mataram os dirigentes do PC do B, então o pessoal da AP se tornou os dirigentes do partido. O atual presidente do PC do B, o Renato Rabelo, é oriundo da AP.

Em 1978 a AP decidiu: “Vamos participar do parlamento burguês” Foi quando lançamos o Geraldo Siqueira [deputado eleito pelo MDB]. Nós tínhamos um slogan forte: “Vote contra o Governo” E fizemos uma campanha lindíssima Tínhamos o movimento estudantil, alguns trabalhos em bairros. Fizemos um trabalho de mil bocas-de-urna e conseguimos. Eu sempre trabalhei vinculado com o Geraldinho. Em 1979 estava-se discutindo a questão da formação de novos partidos, quando começaram a ter os movimentos sindicalistas. E nós, da AP, decidimos entrar no PT, embora uma parte tenha ido para o PMDB. O Geraldo Siqueira foi o primeiro deputado estadual a entrar no PT. E nós ajudamos na fundação do Partido dos Trabalhadores e estamos lá até hoje.

Movimento estudantil dez anos depois

Eu participei do movimento operário por conta da candidatura do Geraldo Siqueira. E ele tinha um apoio muito grande dos movimentos sociais. Foi, aliás, a primeira vez que eu conheci pessoalmente o Lula, em 1978, num comício em São Bernardo. Lembro que nós estávamos num bar esperando quando chegou o Lula, brincou com o Geraldinho: “Ô Geraldinho Esse aqui que é o burguesinho que defende o proletariado, hein?” E o Geraldinho: “Mas eu sou bancário” “Ah, bancário é...”, ele ironizou. A esquerda tem essa coisa dos revolucionários sempre serem ligados diretamente à produção. Mas logo depois o Lula falou: “Ô, mas ó, vamos lá É meu aniversário hoje, vamos comer uma pizza lá em cima” E nós fomos. Na época eu ainda tinha uma certa convivência com o pessoal do movimento estudantil, mas já procurava fazer a questão da política mais geral.

O Golpe de 1964 atingiu, principalmente, o movimento sindical, a minha geração teve um papel importante, porque o movimento político estava muito reprimido. Por isso o movimento estudantil foi tão importante. Em 1977 outros setores da sociedade passam a participar da política e a participação do movimento estudantil não é tão forte como a da geração 68. Mas ainda era uma participação de qualidade nesse período, da geração 77, o pessoal da Refazendo [tendência política dentro da AP], várias tendências que estavam participando. A maioria do pessoal da ALN, da Val-Palmares [Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, organização político-partidária] já tinha sido dizimada pela repressão. Com o passar dos anos eu percebi que os efeitos da repressão alienaram a juventude, o movimento estudantil ficou cada vez com menos presença na sociedade. Mas outros setores começam a se expressar. Na década de 80 tem a formação dos novos partidos.

Continuei participando dos trabalhos contra a ditadura, ajudando em algum ponto. Não participava mais tão ativamente do movimento estudantil, mas eu tive esse sobrepasso dez anos depois, com a molecada. Me lembro que quando a Organização decidiu que o Geraldinho seria o candidato, eu falei: “Mas esse moleque vai ser candidato nosso? Não tem uma pessoa mais velha, mais engajada?” Mas disseram: “Não, ele é um grande agitador, um companheiro combativo”. Foi, então, que eu fiquei amigo do Geraldinho. Depois cheguei a ajudá-lo nas quatro campanhas que ele participou: a de 1978, 1982, 1986 e 1990. Duas foram vitoriosas, a de 1990 ele quase conseguiu se eleger. Inclusive foi quando lançaram a estrela verde, que ele trabalhava essa questão ambiental. Então eu comecei a participar não só da coisa mais geral do partido, mas também numa área engajada com minha especialização. Comecei a mexer com área do abastecimento, da segurança alimentar. Eu comecei a participar e nós ganhamos algumas prefeituras e estabelecemos políticas na área do abastecimento e eu comecei a trabalhar diretamente nesse assunto.

“Agrônomo de asfalto”

Eu acho que escolhi Agronomia por influência de casa, meus pais eram colonos, viveram no campo. Acredito que seja isso, porque eu sou bem urbano, nasci em São Paulo, mas a temática rural sempre foi muito presente em casa, meus pais contavam a história deles no campo. Na infância eu ia muito visitar meus avôs em Campinas. E quando eu fiz o Colégio de Aplicação, fiquei um ano fazendo testes para saber que carreira deveria seguir, deram três para eu escolher: Física, Matemática ou Agronomia. E acabei escolhendo Agronomia.

Mas eu tive pouca vivência prática de campo, mesmo na escola, porque eu era militante e faltava muito nas aulas. E logo que me formei vim para São Paulo, trabalhar na Secretaria de Agricultura, mas com economia agrícola. Eu brinco que sou um agrônomo de asfalto. Mexo com a parte temática, mas do ponto de vista da economia agrícola, não mexo com terra, com a plantação. Para você ter uma idéia, eu plantei uma árvore há alguns anos num trabalho que faço no Vale do Ribeira e foi a primeira vez que plantei alguma coisa. (risos)

Diversão em tempos difíceis

Nós tomávamos muita cachaça, fazíamos muita festa Sempre que possível, em Botucatu ou quando fui para São Paulo, nós fazíamos festa. Mesmo com o clima pesado, porque nós tivemos muita repressão, muitos companheiros próximos a mim foram presos, sumiram, nunca mais apareceram... A queda da AP, em 1973, foi muito forte Mas nós conseguíamos nos divertir...

As duas greves de Botucatu, de 1967 e 68, criaram um grupo muito grande de convivência. São pessoas com quem me encontro até hoje. Esses dois primeiros anos de escola foram importantes. Depois continuamos, por muitos anos, ir direto lá com o grupo de amigos, alguns viraram professores da escola. Tinha uma convivência bem legal mesmo

Apoio dos pais

Eu tive um apoio muito grande dos meus pais, especialmente da minha mãe, ela adorava que eu estudasse. O sonho dela era que os filhos dela estudassem e meus irmãos quase não terminaram o ginásio. Como eu militava, ficava muito tempo escondido, então ela ia a Botucatu me visitar. E quando eu já estava sendo perseguido, ela ia visitar meus amigos na cadeia para dar apoio.

Sempre tive muito apoio dos meus pais. Quando cheguei em São Paulo, fui alugar uma casa para ser um aparelho clandestino que seria a gráfica do Partido. Eu precisava de um fiador e pedi pra eles, mas avisei: “Vocês não podem saber o endereço, porque se forem presos vão bater e vocês vão ter que falar”. Aí eu tampava o endereço e eles assinavam. Eles tinham todo o medo, choravam, por causa da repressão, mas sempre concordando comigo.

Namoro e casamento

Eu namorei um bom tempo uma moça da faculdade, mas nós terminamos. Meu primeiro casamento, com a mãe do meu filho, foi em 1974. Eu comecei a namorar em 1973. Ela também era militante, já tinha sido presa, participou da ação política. Mas eu a conheci num trabalho. Fui numa empresa de consultoria e a conheci, ela também trabalhava na área de economia agrícola. Depois de cinco anos me separei.

A minha segunda esposa eu conheci quando eu fui da Associação do Estado de São Paulo, era da diretoria. Me lembro que em uma dessas festas juninas eu a conheci. Nós fizemos um curso para agrônomos de Economia Política. Eu me apaixonei, fiquei seis meses insistindo para ela namorar comigo. Aí acabei convencendo e casei pela segunda vez, durante seis anos. Depois fiquei 15 anos solteiro e casei novamente. É uma moça que veio trabalhar em casa e eu me apaixonei por ela.

Campanha de 1978 junto com Geraldinho

O que eu me lembro de 1978 foi a campanha que eu fiz com o Geraldinho na favela. Era um lugar tão fedido, tão sujo Nós entrávamos nos barracos... Aquilo ficou marcado Eu lembro que tínhamos medo de escorregar naquela coisa e nós estávamos trabalhando. Nós não estávamos lá simplesmente para ganhar voto, tínhamos que conscientizar, conversar com as pessoas, conviver, discutir... Foi um momento realmente muito bonito

Trajetória no PT

Eu comecei a participar do Partido desde o começo, junto com o grupo do Geraldinho que era próximo da direção, de articulação dentro do Partido, que formou um grupo majoritário. Depois comecei a trabalhar mais de perto com a questão do abastecimento, da segurança alimentar que veio a dar no programa Fome Zero. Quem trabalhava comigo naquela época era o pai do Ministro Graziano [José Graziano, Ministro de Segurança Alimentar].

Acho que tive uma participação muito interessante no Partido. Eu juntei meus conhecimentos profissionais e minha militância. Depois eu fiquei cuidando da estrutura partidária. Aí, eu diria que curti mais. Estava meio cansado com alguns rigores, com alguns encaminhamentos e me afastei da militância partidária, mas estava sempre próximo. Logo depois que o Lula perdeu a eleição de 1989, tinha o Governo Paralelo e eu participava desses trabalhos. Então, fiquei mais próximo e brinco que fiquei mais lulista do que um petista.

Eu lembro da campanha que fizemos em 1982, quando eu realmente vi que o Lula era uma figura excepcional Na época eu estava fazendo mestrado em economia e o meu orientador era o Graziano e eu: “Professor, vamos lá ajudar o Lula Vamos Pô, você é bom...” Aí, o professor foi lá e nós tivemos uma hora para conversar com ele, nós fomos prepará-lo para um debate que teria na Associação dos Agrônomos. Em uma das perguntas, o Lula deu uma resposta que nós, que só fazíamos isso, nunca tínhamos pensado. Eu falei: “Como é que ele conseguiu pensar isso?” Nós nunca tínhamos pensado essa saída Foi a primeira vez que eu vi que o Lula tinha uma inteligência privilegiada.

A segunda vez foi em 1991, quando fomos entregar o documento de segurança alimentar na casa dele. Nós, o grupo de técnicos, sabíamos que tinha um furo no documento, que não estava claro o papel do Estado. O Lula leu calmamente e quando terminou, disse: “O papel do Estado não está bom aqui, né?” Bom, eu participo de todas as campanhas, faço assessoria.

Lula eleito

Quando o Lula foi eleito, foi realmente um sonho Eu milito praticamente desde os 16 anos de idade. Eu sinto que nós conseguimos realizar parte do sonho. Evidentemente que continuamos com a vontade de ter uma sociedade igualitária, acredito que o Socialismo é o melhor caminho para humanidade. Mas acho que está sendo feito o possível, estamos dando passos para frente. Existem problemas, nem sempre são tomadas as decisões que acreditamos ser o melhor caminho. Por exemplo, o encaminhamento do programa do Fome Zero, não era exatamente assim que pensávamos, mas está começando a retomar o plano original.

O PT é a síntese de um setor da sociedade que lutou e hoje está ocupando os espaços. Ainda tem muito por fazer. Não temos a ilusão de pegarmos o poder propriamente dito. É um pedaço e tem muito ainda para chegarmos lá. E eu continuo esperançoso com isso E o que precisar, enquanto eu tiver energia, vou continuar ajudando para que aconteça.

Projeto no Vale do Ribeira

A partir de 1994 eu comecei a trabalhar na região do Vale do Ribeira, um amigo me convenceu. Eu estava me inscrevendo para o doutorado, uma tese sobre feijão, e ele disse: “Não, Pacu, você já estudou muito Você vai se encher Então vem aqui. Já que você gosta de trabalhar com pobre, vem aqui pro Vale do Ribeira” E eu fui fazer o trabalho, justamente de alternativa para essas comunidades. O Vale do Ribeira é o lugar com maior área preservada da Mata Atlântica de São Paulo, mas em condições sociais está entre os piores. É um atraso Tem município que equivale aos piores municípios do Nordeste. E o trabalho ali é muito difícil, por causa das forças políticas. Mas nós não desistimos.

Nós temos muito discurso de apoio, o Governo fala que aquela área é prioridade, mas não faz um trabalho integrado. E é uma região muito complicada, porque como é uma área de preservação, ela tem umas leis muito restritivas, até com as atividades básicas de subsistência. Mesmo em áreas que não são parques é proibido plantar pela lei da Mata Atlântica.

A renda é das piores que se tem no estado, não corre dinheiro ali. Hoje eu faço esse tipo de trabalho lá. É muito difícil porque eu trabalho dentro do Estado e tenho tido pouco apoio, mas estamos lá.

Experiência da paternidade

Ser pai é interessante... Eu não queria ter filho e a minha primeira esposa queria muito. Eu me separei muito cedo, meu filho não tinha nem um ano. E a minha convivência com ele foi a de pai separado, aos fins de semana, alguns dias que eu ficava com ele, mas era pouco tempo. Não fui um pai presente sempre. Mas eu tenho uma boa convivência com ele, que chegou a morar comigo por algum tempo. Mas eu tenho consciência de que ele teve um pai ausente. Porque eu usava a maior parte do meu tempo para a militância. Tinha muitas reuniões, trabalhos...

Eu e minha ex-mulher sempre procuramos dar noções de política, cidadania, solidariedade e respeito ao próximo ao nosso filho. Mas nunca o forçamos a nada, tanto que ele não participou de nenhuma militância política. Eu me lembro que a única coisa que ele falava é que ele não queria saber de trabalhar com política. Então, o desejo dele foi até nos contrapor, ele sempre pensa em trabalhar em grande empresas. Porque nós, tanto eu quanto a mãe, sempre trabalhamos no Estado, com os excluídos. E ele dizia: “Não quero saber de trabalhar com pobre não”

Dificuldade de se expressar

Não sei se mudaria alguma coisa na minha vida, gostei de tudo que fiz. Do ativismo político, eu gostei de me dedicar à questão coletiva. Mas, por exemplo, eu nunca exerci o trabalho de agrônomo típico, gosto muito do mundo rural, até hoje sou um estudioso desta área.

Uma coisa complicada até hoje é que ainda tenho uma dificuldade muito grande de me expressar pela escrita. É uma coisa que eu gostaria de ter desenvolvido melhor. Foi uma coisa que aconteceu lá atrás, desde a época de criança, quando eu fui mandado embora do parque... Não deveria sofrer tanto para escrever, porque é da minha profissão. Então, os meus amigos me ajudam a escrever. Eu fiz minha dissertação com gente do lado. Eu lembro que, certa vez, fui entregar umas páginas para o Graziano ler, eram umas três páginas, e quando ele me devolveu, disse: “Isso aqui que você escreveu dá para fazer umas 40 páginas no mínimo Não tem nem verbo aí” Aí vem uma colega: “Vamos lá, Pacu” (risos) Eu compreendo tudo, mas escrever é uma coisa complicada.

Maior conquista

Uma pessoa que marcou muito a minha vida chama-se Paulo Wright, o nome de organização dele era João. Ele me incentivou a estudar, fazer mestrado para eu entender de economia política, de marxismo. O que ele deixou me foi muito importante, a idéia que devemos transmitir, nos trabalhos que fazemos, o espírito de solidariedade, de procurar contribuir para a melhoria do próximo. E nós temos, de alguma maneira, conseguido vitórias. Desde o período da militância nós conseguimos mudar algumas coisas, como o modo de fazer política. Eu acho que nós estamos deixando essa vontade de transformar a realidade brasileira para as gerações futuras.

Mais recentemente, por exemplo, esse trabalho que faço no Vale do Ribeira, com a questão da sustentabilidade, do resgate dos valores culturais da população e nós vemos a força do mercado, que vai triturando a cultura, homogeneizando tudo... Eu tenho a oportunidade de conviver com o povo do Vale do Ribeira, que tem um certo isolamento, é uma população ribeirinha, remanescente de quilombo, caiçara. E preservar a cultura e o modo de viver nos estimula. E esse trabalho é muito difícil, mas é gratificante

E nós estamos concretizando os ideais de muitos desaparecidos da época da repressão. Tive a sorte de não ter caído e sofrido. Embora tenha sido preso, não ficaram seqüelas, pois não perdi a esperança de transformar este país.

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